ONDE ESTÁ DEUS QUANDO DOI?
Poucas perguntas penetram tão fundo quanto esta: se Deus é bom, por que permite o sofrimento?
Essa indagação não é apenas teórica, nem sempre nasce da dúvida, mas frequentemente da dor. É o tipo de pergunta que não se faz com os lábios, mas com os olhos marejados. Eu mesmo já a fiz várias vezes, e você já leu por aqui algumas destas agonias, mas ao final percebi que era apenas meu coração assolado pelo medo e assombro. Ela nos visita no silêncio do quarto de hospital, no sepultamento inesperado, na notícia cruel. É um grito que ecoa desde Jó até os nossos dias: “Por que, Senhor?”
Mas se Deus existe, e é todo-poderoso, e é amoroso, por que não intervém? Por que não impede? Por que crianças morrem? Por que justos sofrem? Por que inocentes choram? Essas são perguntas legítimas, humanas e dolorosas. E ignorá-las seria desonesto. No entanto, o cristianismo não foge da dor, ele a encara. Ele a reconhece. E, mais do que isso, oferece uma resposta que nenhuma outra cosmovisão é capaz de dar: um Deus que sofre conosco.
A Queda e a entrada do sofrimento no mundo
O sofrimento não era parte do plano original. O Éden não conhecia lágrimas. Não havia morte, doença, injustiça ou violência. O projeto divino era harmonia. Mas com a entrada do pecado, o mundo que conhecíamos foi fraturado. O livre-arbítrio concedido por Deus ao ser humano não foi uma falha. Foi um gesto de amor. Um amor que não força, que não programa, que não escraviza. Mas esse dom da liberdade também permitiu a rebeldia. E com a rebeldia veio a ruína. A dor não foi criada por Deus, ela foi consequência da escolha do homem em viver separado d’Ele.
Como escreveu Paulo: “A criação geme e sofre como em dores de parto até agora” (Romanos 8:22). O mundo sofre porque está quebrado. E os estilhaços da queda ainda cortam nossa existência. Mas a boa notícia é que Deus não nos deixou nesse estado. Ele não abandonou a criação ao caos. Ele entrou na história.
Deus não é indiferente: Ele se fez carne
A resposta mais profunda à pergunta “onde está Deus quando sofremos?” está em Belém, em Nazaré, no Getsêmani e, por fim, no Gólgota. Ele está lá. Não observando de longe, passivamente, mas participando de dentro. O Deus cristão é o único Deus que se fez homem e sentiu a dor humana em sua forma mais crua. Ele chorou. Ele foi traído. Ele foi açoitado. Ele teve sede. Ele sangrou. Ele gritou: “Deus meu, por que me desamparaste?” Quando contemplamos a cruz, descobrimos que Deus não nos explica o sofrimento de maneira fria e racional. Ele nos mostra Suas mãos perfuradas. Ele não é indiferente. Ele é empático. Ele entrou na dor para vencê-la.
O sofrimento de Cristo não foi um acidente. Foi uma missão. E, ao carregar o peso do pecado e da injustiça, Ele abriu o caminho para que o sofrimento humano não fosse a última palavra. Como disse Tim Keller: “Se você olha para a cruz e ainda diz que Deus não se importa com a dor do mundo, é porque ainda não entendeu o que aconteceu ali.”
O sofrimento como ferramenta e não como castigo
Nem todo sofrimento é punição. Muitos dos heróis da fé sofreram injustamente, e foi no fogo que se tornaram ouro. José foi vendido pelos irmãos, mas foi no cárcere que aprendeu a governar. Davi fugiu de Saul, mas foi no deserto que aprendeu a depender de Deus. Paulo foi preso, mas da prisão escreveu cartas que ainda hoje libertam e transformam.
O sofrimento, em mãos divinas, pode se tornar instrumento de refinamento. Ele não é bom, mas pode gerar bem. Deus não desperdiça dor. Ele extrai propósito até das cinzas. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus...” (Romanos 8:28). Essa promessa não significa que tudo será agradável, bacana e tranquilo, mas que tudo será redentor. A cruz foi horrível. Mas dela brotou salvação. Mas dela nasceu esperança.
Quando não entendemos, ainda podemos confiar
Há momentos em que as respostas não vêm. As orações parecem não romper o teto. As lágrimas se multiplicam. E Deus parece em silêncio. Nesses momentos, não precisamos de explicações. Precisamos de presença. E é justamente isso que Deus promete: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo”(Salmo 23:4). O consolo cristão não é o de quem nega a dor, mas o de quem a atravessa acompanhado. Não somos poupados das tempestades, mas temos um Salvador no barco. E às vezes, Ele acalma o vento. Outras vezes, acalma o nosso coração.
O futuro glorioso: o fim da dor está decretado
A Bíblia não apenas nos ajuda a entender o sofrimento. Ela promete um fim para ele. A cruz foi o início da derrota do mal. A ressurreição foi o selo da vitória. E a promessa é que haverá um novo céu e uma nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor (Apocalipse 21:4). Para o cristão, o sofrimento é real, mas não é eterno. Ele é uma vírgula na história, não o ponto final. O Deus que enxuga as lágrimas também prometeu que, um dia, não haverá mais motivo para elas.
A dor nunca é maior que o amor
A existência do sofrimento não é evidência contra Deus é, paradoxalmente, um chamado à fé n’Ele. Porque se tudo fosse perfeito aqui, esqueceríamos que fomos feitos para mais. A dor nos lembra que algo está errado, e nos aponta para Aquele que veio consertar. Deus não responde o sofrimento com distância, mas com aproximação. Ele não o ignora. Ele o redime. E um dia, cada lágrima será explicada, cada perda será restaurada, e cada dor será transformada em glória. Enquanto isso, seguimos com os olhos fixos n’Ele. Chorando, sim. Mas crendo. Gemendo, mas adorando. Sofrendo, mas sustentados pela certeza de que o nosso Redentor vive, e no final, Se levantará sobre a terra. (Jó 19:25)
Paz e bem,
Eduardo Mendes



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